Insegurança psicológica no trabalho: como a cultura do medo impacta a performance e o engajamento

A falta de segurança no trabalho não é só um incômodo passageiro, ela pode prejudicar os resultados, enfraquecer a empresa e diminuir o potencial das equipes. Quando as pessoas sentem que não podem falar o que pensam, discordar ou admitir erros sem medo de serem punidas, ou julgadas, cria-se um clima de receio. Nesse caso, a energia que seria usada para criar coisas novas, trabalhar em conjunto e aprender é gasta tentando se proteger, ficando em silêncio e seguindo a manada. Isso afeta muito o desempenho e o interesse no trabalho, muitas vezes de forma discreta, até que os números comecem a cair.

A ideia de segurança ganhou importância com os estudos de Amy C. Edmondson, professora da Harvard Business School. Ela diz que segurança é quando todos acreditam que podem se arriscar no ambiente de trabalho, ou seja, é sentir que dá para falar, perguntar, sugerir e até errar sem ter medo de passar vergonha ou ser punido. Se essa segurança não existe, acontece o contrário: o erro vira um problema moral, a diferença de opinião é vista como ameaça e questionar é ser rebelde. Aí, as pessoas preferem ficar quietas em vez de dar sua opinião de verdade.

Esse silêncio na empresa prejudica diretamente o desempenho, pois se os funcionários não falam sobre os problemas por medo, os erros se acumulam, as decisões importantes não levam em conta informações importantes e as oportunidades de melhorar são ignoradas. Uma pesquisa do Google, chamada Projeto Aristóteles, mostrou que a segurança era o principal fator que diferenciava as equipes que tinham um bom desempenho das outras. Não era só ter pessoas boas tecnicamente, com experiência ou um bom grupo, mas como elas interagiam e o quanto confiavam umas nas outras. Nas equipes em que as pessoas podiam admitir erros e pedir ajuda, a capacidade de aprender era muito maior, o que trazia resultados melhores.

Além disso, o medo atrapalha o interesse dos funcionários pelo trabalho, não é só fazer o que precisa ser feito, mas colocar energia, criatividade e se dedicar além do mínimo. Quando o ambiente parece ruim ou imprevisível, o cérebro fica sempre em alerta, pensando em se proteger, pesquisas da Gallup mostram que as equipes que se dedicam ao trabalho são mais produtivas, faltam menos e ficam mais tempo na empresa. Por outro lado, onde há medo e insegurança, as pessoas costumam sair mais e o desempenho cai, porque os funcionários só fazem o básico para sobreviver.

Na neurociência, a falta de segurança no trabalho causa estresse, o que prejudica a capacidade de ser criativo, tomar decisões e resolver problemas, caso o erro for muito punido, as pessoas não aprendem e começam a se defender e, em vez de dividir o que aprenderam, escondem os erros; em vez de dar ideias diferentes, escolhem os caminhos mais seguros. Assim, a empresa consegue manter tudo como está, mas não consegue lidar com mudanças e problemas.

O medo também piora a qualidade da liderança, quando chefes que controlam demais, são agressivos ou ameaçam podem até ter resultados rápidos, mas não criam uma base sólida, esse sentimento negativo pode fazer as pessoas obedecerem, mas não se dedicarem de verdade. Já os líderes que são abertos, sabem ouvir e dividem a responsabilidade, criam um ambiente onde o erro é visto como uma chance de melhorar, e não de punir e essa mudança de pensamento faz do erro uma informação importante e aumenta a confiança de todos.

Outro ponto importante é a inovação, para uma empresa ser competitiva, seus funcionários precisam querer experimentar, testar ideias e questionar as coisas. Só que criar coisas novas exige coragem, porque sempre existe a chance de não dar certo e, em um ambiente de medo, as pessoas tendem a fazer tudo igual e evitar riscos. Com o tempo, a empresa não consegue se adaptar e perde sua importância no mercado.

Para criar segurança, é preciso que a empresa faça o que fala, principalmente os líderes, não basta fazer discursos motivacionais ou ações isoladas. Isso significa admitir erros, incentivar as pessoas a perguntarem, valorizar diferentes opiniões e dar feedback de forma construtiva. Também é importante diferenciar responsabilidade de punição: ser responsável é aprender e melhorar; punir sem critério é fazer as pessoas se calarem e irem embora.

As empresas que investem em segurança no trabalho colhem bons frutos, visto que o desempenho melhora porque as pessoas estão sempre aprendendo e trabalhando juntas, logo, os funcionários se sentem vistos, ouvidos e respeitados, dessa forma o interesse pelo trabalho aumenta. E, o mais importante, a empresa passa a usar melhor a inteligência de todos, aproveitando ao máximo o talento de cada um.

Em um mercado de trabalho cada vez mais complicado e instável, ignorar a falta de segurança é um risco, já que o medo pode pôr em risco a inovação, interesse no trabalho e bons resultados. Um ambiente que estimule a segurança psicológica, mesmo que exija maturidade e planejamento, cria uma base sólida para um bom desempenho. No fim, a pergunta que os líderes e as empresas precisam responder não é se conseguem cumprir as metas sob pressão, mas se estão criando um lugar onde as pessoas têm coragem de pensar, falar e evoluir juntas.

Referências

EDMONDSON, Amy C. Psychological Safety and Learning Behavior in Work Teams. Administrative Science Quarterly, 1999.

Google. Project Aristotle: Understanding Team Effectiveness. re:Work, 2015.

Gallup. State of the Global Workplace Report, edições recentes sobre engajamento e performance.

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