A relação entre o Desempenho e a Ansiedade

O desempenho é frequentemente considerado o principal indicador de sucesso. No entanto, o que muitas vezes permanece oculto por trás de altos e baixos de produtividade é um fator menos tangível, mas extremamente influente: a ansiedade. A relação entre ansiedade e desempenho é complexa e multifacetada, influenciando tanto os resultados imediatos quanto o crescimento a longo prazo.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 264 milhões de pessoas no mundo sofrem de transtornos de ansiedade. A International Stress Management Association (Isma-BR) aponta que, no Brasil, 70% dos trabalhadores enfrentam algum nível de ansiedade. Outro dado relevante, proveniente da American Psychological Association (APA), revela que trabalhadores com ansiedade têm 50% mais chances de sofrer uma queda na produtividade e enfrentar dificuldades de concentração. O Center for Workplace Mental Health (2020) também destaca que a ansiedade no ambiente de trabalho gera custos significativos para as empresas, com perdas globais de produtividade estimadas em cerca de US$ 1 trilhão por ano devido a problemas de saúde mental.

Em um primeiro olhar, pode parecer que a ansiedade é um vilão no mundo do trabalho. E, de fato, em níveis elevados, a ansiedade pode prejudicar a tomada de decisões, reduzir a clareza mental e aumentar o risco de erros. No entanto, a ansiedade nem sempre é negativa. Em doses moderadas, ela pode servir como um motor invisível, motivando as pessoas a se prepararem melhor, a serem mais proativas e a enfrentarem desafios com mais vigor.

Esse fenômeno é conhecido como “ansiedade facilitadora”, que ajuda a aumentar o foco, a energia e a motivação para alcançar metas. Quando estamos ligeiramente ansiosos, nosso corpo e mente entram em um estado de alerta que pode melhorar nosso desempenho. Esse estado aumenta nossa consciência e nos prepara para agir. No entanto, o equilíbrio é delicado: se a ansiedade ultrapassa um certo limiar, ela deixa de ser facilitadora e se torna debilitante.

Um conceito útil para entender a relação entre ansiedade e desempenho é a “Curva Invertida de Yerkes-Dodson”. Este modelo psicológico propõe que o desempenho aumenta com os níveis de ansiedade até certo ponto. Depois desse ponto, o desempenho começa a cair conforme a ansiedade continua a aumentar. Em outras palavras, um pouco de ansiedade pode ser útil para alcançar um desempenho ótimo, mas muita ansiedade causa o efeito contrário.

É interessante fazermos um contraponto com a teoria do Flow de Mihaly Csikszentmihalyi, nesta teoria ele descreve o Flow como um estado de completa imersão e concentração em uma atividade, no qual a pessoa perde a noção do tempo e atinge o máximo de satisfação e produtividade. Esse estado ocorre quando há um equilíbrio entre o desafio da tarefa e as habilidades do indivíduo. Se o desafio é muito baixo, a pessoa pode ficar entediada; se é muito alto, a pessoa pode ficar ansiosa.

Assim, enquanto Yerkes diz que níveis elevados de excitação levam à ansiedade e, como resultado, há uma queda no desempenho. Mihaly fala que, quando o desafio é muito superior às habilidades, surge a ansiedade, o que também interrompe o estado de Flow e diminui o desempenho.

Enfim, são diferentes formas do surgimento da ansiedade no trabalho.

Imagine uma pessoa se preparando para uma apresentação importante. Se estiver completamente relaxada, ela pode não se preocupar o suficiente em se preparar. Porém, um nível moderado de ansiedade pode impulsioná-la a estudar com mais afinco, antecipar perguntas e planejar respostas. No entanto, se a ansiedade for extrema, ela pode ter um “branco” durante a apresentação ou sentir um nervosismo paralisante que comprometa seu desempenho.

Para manter a ansiedade em um nível facilitador, algumas práticas podem ser muito eficazes. Em primeiro lugar, o autoconhecimento e a consciência emocional são fundamentais: é importante reconhecer quando a ansiedade está presente e entender como ela afeta suas emoções e comportamentos. Ferramentas como diários emocionais ou check-ins regulares podem ajudar a identificar padrões e gatilhos de ansiedade. Além disso, o planejamento e a organização desempenham um papel importante, pois a ansiedade muitas vezes é alimentada pelo desconhecido ou pelo medo de não dar conta de tudo. Criar um plano claro, dividir grandes tarefas em partes menores e definir prazos realistas pode reduzir a sensação de sobrecarga.

Outro ponto importante são as práticas de relaxamento, como a respiração profunda, a meditação e o mindfulness, que ajudam a reduzir o nível de ansiedade, trazendo a mente de volta ao presente e promovendo uma sensação de calma. Também é valioso buscar feedback e apoio social. Compartilhar preocupações com colegas de confiança, mentores ou amigos pode proporcionar uma nova perspectiva e diminuir a sensação de isolamento, enquanto o feedback construtivo pode aumentar a confiança em suas habilidades.

A atividade física regular também é uma excelente estratégia, já que o exercício libera endorfinas, neurotransmissores que promovem o bem-estar e ajudam a reduzir os níveis de ansiedade. Por fim, é essencial limitar o perfeccionismo, pois muitas pessoas ansiosas também são perfeccionistas, o que pode aumentar a pressão e o medo de falhar. Definir metas realistas e lembrar que o erro faz parte do processo de aprendizado pode ajudar a aliviar a tensão e a melhorar o desempenho.

A ansiedade não é uma responsabilidade individual; ela também pode ser influenciada pelo ambiente de trabalho. Empresas e líderes têm um papel muito importante em criar um ambiente que minimiza a ansiedade debilitante. Incentivar uma cultura de apoio, comunicação aberta, reconhecimento e desenvolvimento contínuo pode fazer uma grande diferença.

Por exemplo, oferecer flexibilidade no trabalho, garantir que as cargas de trabalho sejam gerenciáveis e fornecer recursos para o bem-estar mental e emocional dos funcionários são práticas que podem reduzir a ansiedade no local de trabalho. Investir em programas de capacitação emocional, como workshops e palestras sobre gerenciamento do estresse, também pode ser uma excelente estratégia para melhorar o bem-estar geral.

A relação entre ansiedade e desempenho é uma dança delicada. Um pouco de ansiedade pode ser um motivador poderoso, enquanto níveis elevados podem ser prejudiciais. O segredo está em encontrar o equilíbrio, gerenciar a ansiedade de forma proativa e criar um ambiente de trabalho que favoreça o bem-estar emocional.

Reconhecer a influência da ansiedade sobre o desempenho é o primeiro passo para utilizar esse sentimento a seu favor, transformando-o em um impulso para o crescimento e o sucesso. Ao adotar práticas de gestão emocional e promover um ambiente de apoio, todos podem alcançar seu potencial máximo de desempenho, mantendo a ansiedade em níveis saudáveis e produtivos.

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