A Mulher no Mercado de Trabalho: Avanços Reais, Tetos Invisíveis e o Peso dos Anos
Depois dos 50: quando dois preconceitos se tornam um
Agora, a parte mais dura desta história.
Ana tem 52 anos. Passou as últimas três décadas construindo uma carreira sólida em gestão de operações. Conhece o negócio de ponta a ponta. Formou líderes. Atravessou crises. Mas desde que sua empresa foi adquirida e reestruturada, aos 51 anos, ela está tentando se recolocar. Já foram dezessete meses. Dezessete meses de currículos enviados, entrevistas que não passam da primeira fase e um silêncio que vai erodindo não só a conta bancária, mas a autoestima.
Ana não é personagem fictícia. Ela é estatística.
Segundo pesquisa da EY Brasil especializada em recolocação de profissionais maduros, o desemprego há mais de um ano atinge 32% das mulheres acima de 50 anos — contra apenas 19% dos homens da mesma faixa etária. O estudo da Fast Company Brasil vai além: uma em cada quatro mulheres com mais de 50 anos desempregadas está nessa situação há mais de dois anos. Para homens, o indicador é de 13%.
O Coletivo 45+, em parceria com a Amarelo, ouviu mais de 350 mulheres brasileiras entre 50 e 59 anos: 64% relatam dificuldade para serem contratadas ou aprovadas em processos seletivos. A autoestima, que estava em 75% entre as entrevistadas em geral, cai para apenas 18% entre as que estão desempregadas.
A pesquisa Etarismo e Inclusão 2023, da Robert Half, apresenta dados que constrangem: 70% das organizações brasileiras contratam muito pouco ou nenhum profissional com mais de 50 anos. Esse público representa mais de 25% da população (IBGE) e 22% da força de trabalho, mas ocupa apenas 5% das vagas nas empresas. A pesquisa Catho 2024 confirmou: dos trabalhadores entrevistados com 50 anos ou mais, 70% estavam desempregados no momento da pesquisa.
O Instituto Locomotiva aponta que 78% dos entrevistados percebem menos oportunidades de trabalho para mulheres do que para homens após os 50 anos. Para aquelas que são mães, o percentual sobe para 88%.
Depois dos 50, uma mulher carrega o peso de dois preconceitos simultâneos: o etarismo e o machismo. A pesquisa da Harvard Business Review, citada pelo Longevidade Expo+Fórum, é direta: depois dessa idade, mulheres são ignoradas nos planos de sucessão das empresas e passam a ser vistas como “ultrapassadas e obsoletas” — mesmo quando acumulam o tipo de conhecimento tácito que não se aprende em nenhum MBA.
O trabalho informal como destino involuntário
Diante de portas fechadas, muitas mulheres acima dos 50 não escolhem o trabalho informal. Elas chegam a ele por exclusão.
A pesquisa da Fast Company Brasil registra que 20% das mulheres 50+ optam por ocupações autônomas e freelancer, enquanto os homens da mesma faixa conseguem recolocação como consultores — uma distinção que não é apenas semântica. Consultores são contratados por projetos estratégicos, geralmente em empresas de grande porte. Autônomas e freelancers, em sua maioria, disputam trabalhos avulsos, com menor remuneração e sem nenhuma proteção previdenciária.
A equação é perversa: a Reforma da Previdência exige que as mulheres se aposentem aos 62 anos. Mas o mercado começa a rejeitar o currículo feminino já perto dos 50. Entre a exclusão do mercado formal e a aposentadoria, há uma década de vazio que o trabalho informal tenta preencher — sem contribuição ao INSS, sem direitos, sem rede de segurança.
Enfim, as mulheres estão avançando. Os dados confirmam isso e seria desonesto negar. Mas o ritmo é lento, os tetos são reais, e para uma parcela significativa, aquela que chegou na meia-idade carregando décadas de trabalho e competência, mercado ainda opera com uma lógica que mistura viés de gênero, etarismo e a ilusão de que “experiência demais” é um problema.
Mudar essa realidade não é uma pauta apenas de mulheres. É uma questão de inteligência econômica. Empresas com maior diversidade de gênero na alta liderança têm, segundo a McKinsey, 34% a mais de rentabilidade. E profissionais maduros trazem para as organizações um ativo que nenhum algoritmo replica: a memória institucional, a capacidade de ler contextos complexos e a resiliência construída a partir de erros reais.
Enquanto isso não for entendido como valor, e não apenas como discurso de diversidade em apresentação de PowerPoint, a sala de espera vai continuar com duas cadeiras: uma para quem tem 34 anos, e outra, vazia, para quem tem 53.


