A Mulher no Mercado de Trabalho: Avanços Reais, Tetos Invisíveis e o Peso dos Anos
Imagine duas mulheres sentadas numa sala de espera de RH. Uma tem 34 anos, MBA, fluência em inglês e uma carreira em ascensão. A outra tem 53, duas décadas de experiência, liderou equipes de mais de cem pessoas e entregou resultados que qualquer conselho de administração sonharia ter. A primeira é chamada para a entrevista. A segunda recebe um e-mail dois dias depois: “Seguiremos com candidatos cujo perfil se alinha melhor ao momento da empresa.”
Essa cena, repetida diariamente em escritórios do Brasil e do mundo, resume o paradoxo da mulher no mercado de trabalho contemporâneo: ela avança, mas nunca tanto quanto os números prometem. E quando chega à meia-idade, o progresso pode virar retrocesso.
O que dizem os números: avanço real, mas ritmo frustrante
A boa notícia existe e merece ser dita sem condescendência. No Brasil, a participação feminina em cargos de liderança sênior passou de 15,2% em 2015 para 36,7% em 2024, um salto de mais de 21 pontos percentuais, segundo o relatório Mulheres nos Negócios 2025 da Grant Thornton. O desempenho brasileiro ficou acima da média global, que chegou a 34% no mesmo período.
No plano mundial, a pesquisa Women in the Workplace, da McKinsey em parceria com o LeanIn.Org, mostra que as mulheres ocupam 29% dos cargos de diretoria em 2024, contra apenas 17% em 2015. O crescimento é inegável.
Mas o copo tem um lado vazio que precisamos encarar.
Segundo o relatório Women in the Boardroom 2024 da Deloitte, apenas 6% dos CEOs no mundo são mulheres, um aumento de apenas 1 ponto percentual em relação à edição anterior. No Brasil, o índice de mulheres como CEOs nas empresas pesquisadas é de 2,4%. Nos conselhos de administração brasileiros, elas ocupam 15,9% das cadeiras, subindo de 8,6% em 2018, crescimento real, mas ainda distante da equidade.
A Deloitte faz um cálculo que deveria provocar desconforto em qualquer sala de reunião: no ritmo atual, a equidade global para CEOs não seria alcançada antes de 2111. Noventa anos daqui.
O estudo Panorama Mulheres 2025, do Instituto Talenses Group em parceria com o Insper, analisou 310 empresas brasileiras em 2024. Das 224 que possuem presidência formalizada, apenas 39 são lideradas por mulheres, 17,4% do total. O cenário nos conselhos é igualmente restritivo: 57,4% deles não têm nenhuma mulher entre seus membros. A pesquisa projeta que, no ritmo atual, a paridade na alta liderança corporativa brasileira pode levar mais de 160 anos para ser alcançada.
Há ainda um retrocesso que merece atenção: a participação feminina em cargos de vice-presidência caiu de 34% em 2022 para 20% em 2024, segundo os mesmos dados do Insper. O pipeline que deveria alimentar o C-level parece estar encolhendo, não crescendo.
Um dado da Bloomberg Línea lança luz sobre uma distorção estrutural: as mulheres predominam em funções como recursos humanos, onde representam 70% dos diretores de RH da Fortune 500, mas esse não é o caminho tradicional para o cargo de CEO. Historicamente, os CEOs sobem a partir de posições de operações, finanças e liderança de divisões de negócio, precisamente os cargos onde a presença feminina ainda é mais rara.
O resultado? Quase metade das diretorias executivas da Fortune 500 já é composta por mulheres e minorias, mas apenas 10% dos CEOs dessas empresas são mulheres. Elas chegam à diretoria, mas por uma porta lateral que não leva ao topo.
No Brasil, o IBGE registra que 39% dos cargos gerenciais são ocupados por mulheres, um avanço real, e a pesquisa do Pacto Global da ONU mostra que 70% dos trabalhadores brasileiros têm apenas homens como chefes diretos. Elas existem na gestão intermediária, mas somem conforme a hierarquia sobe.
A virada silenciosa: homens saem, mulheres ficam, mas nem sempre em melhores condições
Há um fenômeno que vem sendo observado no mercado de trabalho formal e que vale uma análise honesta: em alguns setores, especialmente serviços, varejo e posições administrativas de médio nível, há uma maior disposição masculina à “uberização”, o modelo de trabalho informal por plataformas digitais, sem vínculo empregatício, sem férias, sem FGTS.
Com a Reforma Trabalhista de 2017 e a expansão das plataformas de aplicativos, uma parcela crescente de homens tem optado pelo trabalho autônomo como motoristas, entregadores e prestadores de serviços, atraídos pela flexibilidade e pela autonomia imediata de renda. Isso, em tese, abre vagas formais para mulheres em funções que antes eram majoritariamente masculinas.
Porém, é preciso ser preciso aqui: a narrativa de que o mercado está “substituindo homens por mulheres” é mais complexa do que parece. A socióloga Ludmila Costhek Abílio, pesquisadora da uberização, aponta que as mulheres, especialmente as de baixa qualificação e renda, já viviam uma espécie de “uberização” antes mesmo do termo existir: diaristas, costureiras, revendedoras de cosméticos, trabalhadoras domésticas sem registro. A informalidade feminina não é nova. É estrutural.
O que os dados do DIEESE mostram é revelador: a taxa de desemprego para mulheres é de 9,2%, contra 6,0% para os homens. O rendimento médio mensal feminino (R$ 2.562 no 4º trimestre de 2023) é 22,3% menor que o masculino (R$ 3.323). Entre aquelas com ensino superior, a diferença é ainda mais gritante: elas ganham, em média, R$ 4.701, 35,5% menos do que os homens com a mesma escolaridade (R$ 7.283), segundo dados da CUT/DIEESE.
Ou seja: quando as mulheres ocupam postos antes dominados por homens, frequentemente o fazem com salários menores. A “feminização” de uma ocupação, historicamente, tende a rebaixar seu prestígio e remuneração, e não o contrário.
Nesta primeira parte da análise, abordamos aspectos muito relevantes para avaliar a situação da mulher no mercado de trabalho e na sociedade. No próximo blog, falaremos sobre o mercado para as mulheres 50+. Não perca a continuação deste artigo!


